08/01/2008

A "soquete" (ler com sotaque) do Natal

As palavras não são minhas. E também não partilho da opinião do José Diogo Quintela sobre a utilidade das meias. Mas como nem todos vão ler o Público, achei que um texto desta riqueza e pertinência não poderia passar em branco. Fica então o dito:

"A meia do calcanhar de Aquiles

No outro dia, ao ver o Tróia reparei que se o Aquiles tivesse um bom par de peúgas, nada daquilo acontecia. Eu sei que peúgas com sandálias é muito inestético, mas se calhar a seta não aleijava tanto.Isso fez-me chegar à conclusão que os presentes que recebi este Natal não me agradaram. Na medida em que nenhum deles era um par de meias. Sim, um fim-de-semana em Paris é simpático. A sexta série do 24 é gira. Mas eu gosto mesmo é de receber meias no Natal. Não há melhor do que um par de peúgas apetitosamente embrulhadas. É um presente útil. Um fim-de-semana, lá está, dura um fim-de-semana. A série 24, lá está, dura um dia. As meias duram para sempre. Eu uso meias todos os dias. Para aquecer, quando faz frio. Para manter seco, quando faz calor. Para enchumaçar, quando coloco nas cuecas a fingir que sou mais do que aparento.E, se não mas oferecerem, esqueço-me de as comprar. As pessoas queixam-se muito das meias que recebem no Natal. Desdenham quem dá meias. Acham desenxabido. As pessoas são parvas.Oferecer meias é um acto de humildade. É uma admissão de ignorância. Quem oferece meias sabe que nada sabe sobre os gostos de quem recebe. Um par de meias é um presente socrático.Por outro lado, há quem julgue que conhece o gosto dos outros e se arrogue o direito de indicar que presente é que é adequado para determinada pessoa. "Para o Rogério, uma t-shirt com manga cava muito gira, que comprei no Brasil." Mesmo que o Rogério seja um badocha que vai ficar todo assado no sovaco. É um presente sofista, porque aldrabão. Tenta-se convencer alguém que o que se comprou é perfeito para ele.As meias são, no vestuário, o que o porco é na alimentação, na medida em que se aproveita tudo. (E não na medida em que são ambos transmissores de lombrigas). Uma meia, quando enfiada numa mão, é um fantoche. Três meias, enfiadas numa mão, um fantoche gordo. Quando enfiada na cabeça, é disfarce para um crime. Quando tem um sabonete lá dentro, é uma arma. Quando tem berlindes, outra arma. Quando não há mais nada, é a maneira de atar alguém à cama, numa relação fetichista. Gostava de ver alguém fazer qualquer uma destas coisas com uma t-shirt de mangas cavas.Há um preconceito contra as meias. Isso vê-se no cliché que diz que não se deve fazer amor com elas vestidas. Não percebo porquê. Tirando aqueles casos em que estar de meias prejudica a performance, ao impedir a aderência necessária, não vejo razões para as tirar. As mulheres têm destas regras draconianas (e parvas) em relação ao sexo.A não ser que me consigam convencer de que o Rogério, todo nu, assado nos refegos, com manga cava e meias, é um tipo repugnante, mas que se tirar as meias passa a atraente."

1 comentário:

dona disse...

o que eu me ri agora às gargalhadas...