18/01/2008

Próteses, Macacos e Shakira

Ele há coisas do camandro. Antes de mais, convém aqui explicar que há em mim uma vontade indecifrável de iniciar muitas das coisas que escrevo com a expressão "ele há coisas do camandro". Não me perguntem porquê, talvez seja este quê de mulher do Oeste que há em mim. Às vezes também me apetecia dar uma de Saramago e escrever sem atender às regras que ditam o bom português. Sei lá, para não ter que ser tudo direitinho, que lá nisso eu sou perfeccionista - apesar de ser ostracizada lá em casa por dizer as palavras molhos e fome com uma pronúncia esquisita.
Este post só se safou à sorte de ter o título "ele há coisas do camandro" porque achei que "próteses, macacos e shakira" era bem mais prosaico.

Passando agora ao que interessa e ao real motivo que hoje me trouxe até aqui, ia eu a contar umas peripécias da minha ida de autocarro para casa . Ora, há uma senhora, dos seus 20 e muitos anos que costuma vir comigo no 48. A senhora tem uma prótese na perna esquerda e a prótese não dobra, é rígida. O que a obriga sentar-se sempre do lado direito do autocarro. O que é bastante irritante e limitativo. Tinha vindo a nutrir uma espécie de ternura pela senhora, pelo facto de ela usar a prótese. Não que fosse um sentimento de pena nem que a achasse uma coitadinha, mas mais um sentir-me solidária com a condição da senhora. Às vezes apetecia-me que ela se sentasse ao meu lado e falasse comigo.

Mas ontem tudo isso acabou.

A senhora estava distraidamente a tirar macacos do nariz, sim, aqueles moncos mesmo grandes que se enfiam debaixo das unhas (e podem desde já parar com esse esgar de nojo, que eu bem sei que vocês também o fazem às escondidas). E como é uma chatice ficar com os pobres dos moncos por debaixo das unhas, a senhora começou por retirá-los habilmente com a esquina do folheto da Worten. Daqueles folhetos sobre os preços e as promoções que os senhores chatos da publicidade deixam nas nossas caixas de correio.
E tudo isto pode parecer, numa primeira análise, bastante simples, mas não é! Coloca dois sérios problemas. O primeiro é que chegou ao fim aquilo que poderia ter sido o início de uma bela amizade de autocarro entre mim e a senhora. O segundo é que a pessoa que a seguir tenha pegado no folhetozinho da Worten, muito provavelmente, tipo 99% de hipóteses, ficou com os moncos agarrados às mãos. Pfff, não quero nem pensar nisso. Pobre pessoa anónima que pegou no folheto, fique desde já a pensar que o meu pensamento está consigo, como imagino a sua dor quando viu os moncozinhos colados nas suas mãos.

Bom, e agora que já vos deixei suficientemente enojados, e que vocês já nem se lembram do título do post, deveriam então perguntar "e a Shakira?". Mas eu não me esqueci dela. Isto porque a meio da viagem, tive também o azar de ficar sem pilhas no MP3 (sim, porque sou tão tesa que não consigo ter um IPod daqueles que se carregam no PC; aliás, o MP3 nem sequer é meu, é emprestado!). Vi-me por isso obrigada a levar com as selecções musicais duvidosas das pessoas com que partilho o autocarro. E logo atrás da senhora da prótese, estava um senhor que gosta de parecer rockabilly. Mas aquilo é só farsa, que ele de rockabilly tem pouco. No fundo, ele tenta parecê-lo, mas de maneira tão manhosa que aquilo resulta num estilo que de suburbano tem muito e rockabilly tem pouco. Isto tudo para dizer que, por trás daquela fachada do rockabilly, o senhor estava a ouvir (e agora choquem-se) o raio de uma balada da Shakira! Daquelas que quando dão na rádio, toda a gente muda de estação (espero eu), porque senão vêm-me à cabeça imagens da Shakira em miúda, só com uma sobrancelha e cabelo à Dulce Pontes anos 80, mas em preto, acabada de sair de Barranquilla para Bogotá, na senda do estrelato.

Espero que tenham gostado da viagem.

8 comentários:

Jaime disse...

Está do camandro, muito engraçado, diverti-me imenso! Esse autocarro deveria passar pelo jardim zoológico...

curse of millhaven disse...

LOL muito me ri eu com isto!! grande texto!

Francisco disse...

ainda bem que eu já não ando de autocarro e as pessoas no metro são muito mais asseadas, cof, cof

Maria del Sol disse...

Há dias em que os astros estão todos contra nós... eu também sou sempre a azarada que fica sem pilhas no mp3 ao fim de 5 minutos duma viagem que se prevê longa a chata. Haja ao menos a capacidade de nos rirmos de nós mesmos! :P

dona disse...

só para eu não ficar com fama de conservadora, ela diz "fôme" e "mólhos". eu não tenho culpa.

Menphis disse...

Consigo rever-me nas tuas viagens de autocarro, nalgumas que faço aqui. Hoje, assisti a uma autêntica corrida entre dois velhotes que queriam ir para o lugar, aliás nunca compreendi o que os velhotes fazem às 8 e 20, no autocarro todos sorridentes. Eu, se fosse reformado, a essa hora, estava a dormir:)

Quanto à Shakira, comparo a uma situação que vivi, um rapaz estava com o rádio nas alturas a ouvir...Scorpions e a cantar " Still Loving youuuu". Entre Shakira e Scorpions, venha o diabo e escolha.

Rosa dos Ventos disse...

Ele há mesmo coisas do camandro!
Como não sou urbana não uso autocarros mas tenho sérios problemas para me livrar dos macacos do nariz quando vou a conduzir e estou sozinha!
Normalmente baixo-me um pouco e limpo o dedo ao tapete que por sua vez está sujo com lama dos sapatos e depois limpo o dedo ao colete amarelo que vai naquelas bolsas de lado!
Ando sempre a lavar o colete!
É do camandro...

Abraço e boas viagens

d. disse...

yaaggg!