22/01/2008

Saudade



Há palavras que nos fazem pensar e olhar lá para dentro, ver coisas que tendencialmente escondemos lá no fundo. Li hoje alguém que se interrogava sobre o antónimo de paixão. E que, como sabemos, não existe. Ou se está, ou não se está, como dizia essa mesma pessoa.

A mim, é a saudade que me deixa a pensar. Por ser um vocábulo exclusivo da língua portuguesa (vá, em crioulo eles têm o sodade, mas não conta), por também não ter antónimo, e por doer quando se sente. A paixão também pode doer quando se sente. Mas só se for rejeitada, se for devolvida ao remetente, como aquela correspondência cujo destinatário faleceu ou mudou de endereço. Mas a saudade não a podemos devolver a ninguém, não posso nem consigo deixar de a sentir. A paixão, posso senti-la por outrém, se a pessoa a quem a dirijo não a quiser. Mas a saudade... não posso dirigi-la a mais ninguém que não a pessoa que ma deixou quando partiu. Tenho que esperar que ela deixei de doer. Quando ela aperta mesmo muito o coração, enrosco-me a um cantinho e deixo-me ficar assim, shhhhttt.... baixinho, em silêncio, sem réstia de ruído, à espera que a saudade passe, que não dê conta que eu lá estou. E ela vai e vem como uma tempestade, quando passa é devastadora, mas quando parte... Deixa um rasto de lágrimas que o rosto teima em secar, deixa um coração pequeno e apertado.

A paixão, se bem que não tão dolorosa, também tem que se lhe diga. Tenho uma amiga que diz que chega a apaixonar-se 3 e 4 vezes por noite. Por alguma palavra, gesto ou sorriso de alguém que lhe capta a atenção. Essas paixões fugazes são um combustível insubstituível à vida. Agora que penso nisso, às vezes também me apaixono e nem dou conta. Fico ali, embevecida, a ouvir alguém falar, as palavras soam a música, uma música que enebria. Um copo de vinho, uma conversa, um cigarro. Rastilhos para uma paixão que pode durar alguns segundos, uma noite, ou toda a vida.

Mas a paixão, se não a quiseres, posso sempre endereçá-la a quem a mereça. Já a saudade. Tem remetente único, vai registada e tem aviso de recepção. E nem adianta o carteiro perder a correspondência, ou enganar-se no número da porta.
A carta da saudade sabe bem qual a porta onde bater.

5 comentários:

Anónimo Juvenal disse...

...disseste td...e bem..
A saudade também está muito associada à paixão, ao amor. Só sentimos saudade de quem amamos ou gostamos muito e que por alguma razão não pode ou não quer estar connosco.
É um sentimento incontrolável, mas que muitas vezes nos ajuda a perceber o quão importante alguém é ou foi para nós.
Mas um dia a saudade deixa de nos provocar...e ficamos bem com ela.
Penso eu de que...
*

Jaime disse...

Foste fundo.

Maria del Sol disse...

Bem visto este paralelo entre os dois sentimentos. Por acaso lembrou-me umas palavras que li há pouco, que ligam esses sentimentos através do acto de suspirar, e que tomo a liberdade de transcrever, para não trair a ideia do autor:

"Suspirar é o único gesto verdadeiramente social. Toda a gente consegue rir e chorar sozinha, mas para suspirar é preciso outra pessoa. Um suspiro é um acto involuntário de comunicação. Connosco, acima de tudo. E, se a pessoa com quem se está estiver atenta, com ela também .
(...)O suspiro é um sopro de pequenez, uma versão humana do vento com que Deus criou o mundo."

Miguel Esteves Cardoso, "Suspirar" in Explicações de Português, pág. 222

É fascinante ter uma língua que permita falar de tantas nuances afectivas. E tu conseguiste-o no teu post :)

Beijinhos!

dona disse...

amei o post. e eu é que vou lá ao fundo?

o pior é que às vezes não tem aviso de recepção. e o outro fica na ignorância, por "problemas de expressão". enfim...jogos mal jogados.

a saudade é suprema na sua tristeza, companheira da melancolia, amiga chegada da p*** da nostalgia, mas muito mais portuguesa.

Rosa dos Ventos disse...

O teu texto comoveu-me muito!
E saudades de quem partiu sem querer, nem termos tempo para dizer adeus porque pensavávamos que ainda tinha mais algum tempo?...

Abraço