28/12/2009

Boring



Estas segundas-feiras após períodos de férias fingidos têm sempre o condão de trazer consigo uma profunda crise existencial. As pessoas estão mais detestáveis que nos outros dias, a voz dos chefes soa mais estridente do que o habitual, a paciência esgota-se demasiado depressa. E depois, o final do ano que se aproxima. A vontade de mudar de vida fica ainda maior. Vontade de conhecer pessoas diferentes, traçar novos objectivos , abraçar projectos inéditos.

Mas amanhã é 3ª feira, dia de voltar às mesmas caras, aos mesmos horários, às mesmas frustrações. E depois será quarta, e depois quinta, e depois um ano a acabar, nova década a começar. Hei-de ter o mesmo computador, na mesma ilha, ladeada pelos mesmos rostos de todo um ano que passou.

Oh um trabalhinho tão bom!!

Say what?? "Trabalhinho"?? Só essa palavra dá-me arrepios.

Shit, preciso mesmo de algo novo. Só não sei o quê.


23/12/2009

Auto-adulação


Porque é Natal. Ou não. Mesmo que não fosse, whatever, um mimo é sempre bom.

E por isso hoje apetece-me dedicar-me esta Interrogação, do Camilo Pessanha.

Apetece-me fazer minhas estas palavras.
Que alguém adoece de sentir-me doente.
Que o meu sorriso é quase um sol de inverno.
Vou fingir. E gosto da sensação.




Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,

Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;

E apesar disso, crê! nunca pensei num lar

Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.



Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.

E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.

Nem depois de acordar te procurei no leito

Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.



Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo

A tua cor sadia, o teu sorriso terno...

Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso

Que me penetra bem, como este sol de Inverno.



Passo contigo a tarde e sempre sem receio

Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.

Eu não demoro o olhar na curva do teu seio

Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.



Eu não sei se é amor. Será talvez começo...

Eu não sei que mudança a minha alma pressente...

Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,

Que adoecia talvez de te saber doente

22/12/2009

Da acefalia no seu pior


Nós, gajas, temos uma certa, terrível e inevitável tendência à acefalia no que toca às questões do coração. É um pouco como as mudanças de humor provocadas pela TPM, temos que sofrê-las e pronto.


Somos um ser demasiado afectuoso, e em proporção directa demasiado carente. Maldito sexo fraco!, pensarão algumas. Se somos mais fracas por sermos afectuosas, carentes? Não me parece. Antes pelo contrário, apenas nos torna mais fortes.


Afinal, só mesmo a uma mulher (acéfala, sublinhe-se), pode suceder ser emocionalmente "enrabada" - e desculpem-me os mais sensíveis, que hoje não estou para eufemismos - e ainda assim sentir uma necessidade inexplicável de amar ainda mais, de se querer dar, de querer acolher e acarinhar.


Porra, é nestas alturas que gostava de ser gajo. Os gajos são tão mais terra a terra, tão mais práticos! Quer dizer, nem todos. Sim, que ainda noutro dia ouvi um gajo assumir que uma das coisas que o assustavam quando tinha namorada, era que ela um dia já não estivesse lá, que o abandonasse. E não, o gajo não era feio, muito pelo contrário. Por isso, das duas uma, ou o gajo é um mentiroso de primeira, o então é o homem que todas queremos ter por perto. Gajo ( e giro!) que tem medo de nos perder, imaginem só!


E com isto, tenho dito. Vou trabalhar.


20/12/2009



As segundas vezes são menos dolorosas. Já não se passa o duro calvário das lágrimas gratuitas. Sabe-se aceitar melhor a dor. Liberta-se da saudade de outra maneira.

Afinal, tudo já aconteceu antes.

17/12/2009



Ainda sobre o casamento gay, apreciem bem estas pérolas colhidas no site do Público :


Atrocidade nº 1: Tenho vergonha ao que chegou a sociedade nos dias de hoje. Casamento para mim deixa de ter qualquer valor a partir de agora. O que vem a seguir? Legitimizar casamentos entre espécies diferentes? Ou entre 3 pessoas? Andando por este caminho é onde vamos chegar. É uma falta de respeito total por quem é casado ou pretenda casar-se.


Atrocidade nº 2: Se pudesse fugia de Portugal. Mas, não posso por razões de dinheiro.


Atrocidade nº 3: A partir de agora e para não fugir à regra do estado da nação passa tudo a andar de marcha atrás.


Atrocidade nº 4: boa notícia! tanto tempo perdido à volta desta "muito importante" questão! agora já se podem casar! vai ser curioso fazer o levantamento daqui a 1 ano, de quantos casais de é que se "casaram". gostava (mas não posso), de estar hoje no chiado e no bairro alto a ver a "festa". com esta decisão, acaba-se com esta discussão, com este tema e avancemos para o que realmente importa. curioso, quem pode casar, fá-lo cada vez menos!! qual será a próxima reivindicação (vestida como direito fundamental)? aceitam-se sugestões, afinal de contas, o proibido é o mais apetecido e quando não o é, deixa de ter piada! não há paciência para estas minorias, que vivem no seu mundo, para as suas gentes, que se auto excluem, que têm os seus espaços próprios, que vivem numa redoma! Ahhh, mas a culpa é da sociedade, qie os excluem, que não os respeitam! Não há paciência! vão bugiar e aproveitem para se casraem e ficarem caladinhos!


Atrocidade nº 5: Definitivamente este país vai muito mal. Ao que chegamos: a uma aberração anti-natura. Nunca vi 2 homens ou 2 mulheres a terem filhos .... por mais que tentem não dará nunca. Cada vez tenho mais vergonha e nojo de ser português.


Atrocidade nº 6: É um dia triste e vergonhoso que vai marcar a historia deste pais...



Caros leitores, estejam à vontade. Neste blog é permitido vomitar.

Até que enfim!!





Informação nº 1: Semana de aniversário em Paris.

Informação nº 2: Semana seguinte em Berlim.

Informação/Questão nº3: Podia estar mais feliz se não fosse fazer esta viagem? Talvez, mas não era a mesma coisa.

16/12/2009


Não lhe pareceu um desafio assim tão grande fazer o tal exercício de memória. Há muito que a relação vinha seguindo uma direcção demasiado unilateral, o que facilitava essa análise que o psicanalista agora lhe pedia. As (poucas) acções que podia identificar entre os dois partiam quase sempre de si mesmo, a imobilidade do outro lado era aterradora.


Queria fazer mais, entregar-se mais, amar mais. Mas sentia-se amputado pelo silêncio dela, excluído pela redoma em que ela se escondia, castrado na solidão em que vivia aquela "coisa" a dois.


Começou pois por ir respondendo ao psicanalista:


Beijo apaixonado? Huuumm... Não me lembro do último. (espontâneos também não, pensou. )

Abraços, não. (Say what? Isso o que é?, riu-se para si mesmo)

Palavras com significado? [tic tac, tic tac, tic tac] A resposta foi inevitavelmente semelhante às anteriores.


O psicanalista não precisou de fazer comentário algum. Já o acompanhava há algum tempo, já se compreendiam mutuamente sem serem necessárias muitas palavras, quase um acessório, em situações várias.

No caminho para casa interrogou-se como poucas vezes era levado a fazer. Não conseguia perceber o que o mantinha ali, agarrado a um sentimento que tinha quase por certo ser só seu. Afinal, merecia muito mais do que aquilo. Nada tinha a ver consigo ter que pedinchar afectos, manifestações de carinho, demonstrações de paixão. Afinal de contas, a paixão devia estar lá, como ele a sentia dentro de si.


Mas não. No lugar da paixão dela, apenas um olhar muito vazio, dois braços que não sabiam abraçar, nada que lhe falasse ao coração.







Na manhã seguinte, o seu nome fez as delícias dos jornalistas ao encher as manchetes do país inteiro. Atirara-se de um prédio aleatório na cidade, pondo um final trágico ao seu desamor.



Parece que a mulher lhe seguiu os passos nessa mesma tarde.

13/12/2009


Odeio este meu rabo de cinquenta anos. Longe da glória de outros tempos, onde nada me diminuía quando comparada com essas putas com que hoje te regalas. Já não reconheço a minha voz, consumida pelos cigarros intermináveis fumados após cada desilusão, a cada noite só, a cada grito. Rouca, foi-se o brio de outrora, o esplendor com que me entreguei a ti e que fui lentamente perdendo.

Os sinais da discussão recente são evidentes. O copo partido, o cinzeiro caído, as cinzas espalhadas, as beatas desordenadas. Como eu, como tu, como a nossa vida. Os negócios, sempre os negócios. O tempo, sempre amanhã, sempre na próxima semana, no próximo mês, no próximo ano. As viagens adiadas, os jantares frios, o meu corpo inerte esquecido na cama.

Esta madrugada, um último suspiro quase inaudível, enquanto te esperei só mais uma vez. Uma maleita aleatória das quais padeço fez-me sucumbir a uma morte silenciosa, anunciada, mas jamais esperada. Morri só, na alvura assustadora dos lençóis, sempre vazios. Não sei por quantas horas mais ficará o meu corpo aqui jogado. Talvez chegues esta noite, embriagado e envolto nesse perfume barato que trazes do corpo de outras. Chegarás quem sabe tão ébrio que nem sentirás o cheiro da minha morte. Provavelmente cairás na cama, a meu lado, para apenas na manhã seguinte te dares conta da minha existência, a qual há muito esqueceste.

Sentir-me-ás agora? Lamentarás todo o tempo adiado, o amanhã, o depois, o próximo ano?

Acorda, foda-se! Aproxima-se a hora do meu funeral.

06/11/2009

A galinha da vizinha...


Esta semana, partilhava com um amigo o meu contentamento por ter conseguido bilhetes mais baratos para as Obras Completas de Shakespeare em 90 Minutos e por ter obtido vaga no curso de escrita criativa - gratuito, claro. Ao que ele me responde com um ah, este fim-de-semana vou para Madrid, e em Fevereiro uma semana para Nova Iorque. Foda-se. E eu toda contente por umas merdinhas de nada. Eufórica mesmo!

Afinal, quando se tem pouco, os padrões da satisfação tendem a baixar, a ajustar-se à sufocante realidade em que nos mexemos. Mas será saudável aceitar tais padrões, tão baixos? Será que nos vai ajudar a lidar melhor com as nossas limitações, protegendo-nos da dureza da nossa realidade? Ou simplesmente criar uma redoma que aos poucos nos faz contentar com o pouco que para nós é tangível?

Não quero nem posso aceitar ficar dentro da redoma. Ficar na redoma seria morrer para a vida, calar o intelecto, tapar o sol com a peneira. Cada dia a mais que passar dentro desta redoma, mais me sinto penar.

Puta da galinha!

02/11/2009


De repente, dou por mim a ficar exímia nesta arte de simular sorrisos. Quando se passa de um espaço onde todos os dias vemos as mesmas 3 caras, para um edifício onde diariamente podemos cruzar-nos com cerca de outras 150, há que improvisar. Pois é, parece que um estranho código de conduta secreto dita que se cumprimente toda a alminha com quem nos cruzemos. E como já não há paciência para tantos Bons Dias, Boas Tardes, e Até Já's, vale mais ficar pelo sorriso amarelo.

Facilita. Poupa-nos tempo. Bah.

19/10/2009


Vai ficar tudo bem... (*)
Estou AQUI.


Mil Folhas


A barriga esborrachada contra a secretária impede-me de chegar ao teclado com a facilidade a que me habituei nos primeiros dias. Agora, só de braços esticados no ar e a muito custo. Ir ao fax ou à maldita fotocopiadora (sempre avariada!), tornou-se numa verdadeira e dolorosa travessia do deserto. Os troncos que são as minhas pernas arrastam-se penosos, as articulações em gritante desespero, os pés inchados da má circulação. Faz calor e a fricção entre os meus membros deixou-me a pele vermelha e irritada, ferida da gordura que já não cede qualquer espaço. O meu cabelo cai agora ao mínimo toque. Já deixei de me preocupar. Desde os 20 que assim é e não há-de ser agora que vai mudar.



Tomo mais um Centrum, fingindo uma consciência nutricional que nunca tive. Iludo-me mais uma vez, achando que assim vou recuperar a energia que há muito perdi pelos vários quilos que me prendem os movimentos.



A seguir, tempo ainda para uma cápsula que apregoa uma milagrosa luta contra a queda do cabelo.



Bem sei que nada fará.



Os anos passaram e deixei-me consumir impávida e serena pela sociedade. Tornei-me prisioneira da minha ociosidade viciante. Sou consumidora e consumida, e não já distinção alguma entre o que significa ser uma coisa e outra. Os anos limitaram-se a repartir os parcos ganhos entre a habitação precária, os inevitáveis e odiosos impostos, e o ininterrupto alimentar da morbidez da minha obesidade. A carreira prometida e sonhada nos verdes anos diluiu-se entre os milhares de números teclados, as actas redigidas, as reuniões assistidas, as horas extraordinárias, e por fim o confinamento à maldita secretária que agora me estrangula, atrás da qual procuro respirar sem sufocar.



Subsídios de férias? De Natal? Pagaram o maldito imposto municipal do imóvel que herdei sem querer e que só me dá despesas. Pagaram o seguro do carro, as mudanças de óleo, as operações, as idas ao senhor doutor.



Nunca como hoje senti a sociedade tão malévola, tão cínica na maneira como se insinua sem nos apercebermos de que estamos a cair na sua hedionda teia. Em toda a minha vida, uma pessoa apenas conheci que não se deixou levar pela corrente. Nadou rio acima e encontrou a plácida felicidade com que eu sempre sonhei.



Eu não. Nadei para dentro de mim, mergulhei na minha asquerosa gordura, fiquei aqui sentada na cadeira. Na cadeira que acabo de partir, por já não suportar o meu peso. Sei que estou à beira do despedimento com justa causa. A saúde que já não tenho assim o ditará. Depois do episódio da cadeira, fui gozada, apontaram-me o dedo, "olha a gorda das bolas de berlim, partiu a cadeira". Já nada me faz chorar.



Só quero chegar a casa e comer os meus mil-folhas.








18/10/2009

Viver cada dia como se fosse o último. Ser-se intenso, livre, espontâneo. Amar as coisas intensa, indomável e apaixonadamente. Esta é a máxima hollywoodesca com que somos involuntariamente injectados. Nos filmes, nos livros, na publicidade. Mas... e das 8h30 às 17h, enquanto estou naquele trabalho de que não gosto, a desempenhar tarefas que não me engrandecem, com as quais não me cultivo, com as quais me sinto estagnar irreversivelmente? Nesse horário de trabalho, o que fazer com a máxima do Carpe Diem? Chegará pôr um sorriso e fingir amar aquilo que se está a fazer? Chegará a hipocrisia de parecer bem por detrás de um balcão ao qual as pessoas chegam angustiadas, no fundo da sua pobreza, ou indiferentes, do alto da sua riqueza?Num cenário idealista, sim, eu era a maior apologista do Carpe Diem, e aplicava-o sem hesitar. Porque não me condicionava um horário de trabalho capitalista, onde diariamente sou confrontada com a pressão das vendas e com o crescimento do volume de negócio.
E depois há o David, que trabalha no restaurante onde almoço todos os dias. O David que fugiu de um destino mais que certo a uma aldeia no interior norte do país. Nos dias em que está mais brincalhão, pede-me em casamento e diz que vamos fugir para longe, fugir do namorado que eu o faço acreditar que tenho. O David lava a loiça, recolhe pratos, serve à mesa. E infalivelmente, pelas 10h ou 11h da manhã, é vê-lo entrar porta adentro a pedir que lhe troque moedas e sorrisos. Ponho-me no lugar dele e fico a imaginar se sentirá as mesmas angústias que eu, se é infeliz no trabalho, se se sentirá frustrado por não fazer mais por si próprio e pelo mundo. Será que ele sabe que existe o Carpe Diem, será que o sente enquanto recolhe um copo sujo de vinho, enquanto esfrega a gordura de um prato, ou quando a namorada o recebe em, casa cansado ao final do dia? Sabes do que falo, David? Imaginas o que sinto? Sabendo-o ou não, o David aparece-me sempre feliz, como se não tivesse mais 10 horas de lava-loiça pela frente. Não sei qual é o truque dele. Talvez adopte uma postura caeirista, se assim se poderá chamar. Talvez fosse mais feliz se partilhasse da ingenuidade do David. Se não me preocupasse.

17/10/2009


Há momentos do passado que chegam da maneira mais inusitada. Como num aperto de mão de uma qualquer sexta-feira, que chega em jeito de massagem. Aquela massagem que faz estalar todos os dedinhos da mão, num relaxamento que chega a roçar uma espécie de dor.

Nesse gesto, regressou ela e todas as memórias que a rapidez dos dias forçam a esquecer. E outra vez os olhos marejados. O corpo entorpecido pelo inesperado da recordação. Vontade de abraçá-la mais uma vez, de sentir as suas mãos apertarem e massajarem as minhas mais uma vez, ora relaxante, ora fingindo uma punição merecida por alguma acção menos correcta.


Tenho tantas saudades tuas.

08/10/2009



Temos mesmo que cumprimentar com beijos todos aqueles que conhecemos?

Malditos formalismos!

06/10/2009


A areia não seria mais movediça se lho pedissem.



Nem o rio mais fugidio, se lho ordenassem.



Assim, meu amor, te trago, murmurado o teu nome pelas paredes dessa Lisboa, essas paredes gastas onde te bebo para logo te perder.



Dessa Lisboa alta onde tremo de te saber, sobe esta ansiedade que nunca calei, que beijo algum nunca acalmou.



Sôfrega, calcorreio as ruas e grito o teu nome incessantemente, esgoto-me na procura de nunca te encontrar, de te agarrar para logo te perder.



Cale-se o Tejo e as gaivotas, cale-se o vento nas árvores, calem-se os fados nas Alfamas desta cidade, cale-se a chuva nas sarjetas e as varinas idas do Cais do Sodré.



Oiça-se apenas o teu coração, que nesse dia baterá uníssono ao meu.




14/07/2009

Tu vendes roupa, eu, dinheiro. Previa-lo? Eu não. Não quando te derrubava e te vencia à dentada, e tu corrias para o colo da mãe e te queixavas lavado em lágrimas. Ainda te vejo, beicinho pendurado, tão loirinho e magro, agarrado à saia dela a mana mo’deu-me, a mana é má. Eu nunca admitia o mal que te fazia. E permanecia impávida e serena, enquanto tu mostravas à mãe os meus dentes marcados na tua pele. Os insultos, os palavrões, o bater de portas que se ouvia na casa da vizinha Lena. Horas depois, tréguas feitas, e brincávamos outra vez no teu tapete, com estradas e casinhas desenhadas, carrinhos desgovernados de um lado para o outro.

Hoje? Chegamos a casa cansados, a luta é sobre quem faz o jantar, e quem lava a loiça, e quem estende a roupa e quem tem direito ao computador ou ao carro nessa noite. Os sonhos ficam distantes nessas alturas. Acendemos um cigarro, falamos sobre as contas que temos a pagar, vemos de rajada o estúpido concurso que a TV cospe.

09/07/2009

Serenipity


Serendipity is the effect by which one accidentally discovers something fortunate, especially while looking for something else entirely. Wikipedia

247 posts, 12 meses e tantos comentários depois, finalmente a

TRANQUILIDADE.

Esse estado de alma que sem saber procurei por tanto tempo. Passageiro ou não, sinto-o em pleno. E sabe-me bem.

07/07/2009

Viviam presos na meia idade, numa malha de almoços e jantares e concursos televisivos inócuos e as visitas dos netos aos domingos. Ainda iam para a cama de forma regular - dependendo do ponto de vista - mas com a frequência normal para a sua idade. Uma vez por semana. Sem grandes dramas, sem grande entusiasmo, sem a dedicação de outras idades. Mas ainda se amavam, e isso chegava-lhes. Ela já raramente ficava por cima. A ele não lhe fazia diferença, ela tinha aquele problema nas costas e ficando por baixo custava-lhe menos, dizia ela às amigas em desabafo. E ele agradecia. Gostava de comandar, não obstante por ora não houvesse muito que comandar, já não reservavam grandes surpresas um ao outro. Tinham tido uma vida feliz. Primeiro os filhos, depois os netos, os anos a passarem sempre intermediados pela inevitável semana no Algarve, as mesmas rotinas, os mesmos gestos. E sempre a mesma ternura presente. Já não havia ele a chegar quente do trabalho e a tomá-la ali mesmo, na cozinha, ou ela a acordá-lo gulosa a meio da noite de língua generosa. Agora havia o chá de camomila antes de dormir, ela preguiçosa no sofá, ele com um qualque bricolage. E a queca semanal.


15/06/2009

Retratos antigos (upload)

Voltamos à Graça. O tempo está frio, mas um leve manto de sol já cobre Lisboa, já nos cobre a ambos. A luminosidade perfeita. Calas-me num beijo e no segundo seguinte fotografas-me. Nunca sei muito bem como agir perante a tua objectiva. Acabas sempre por me captar, quer queira quer não. Tretas, fita minha, no fundo sabes bem que adoro ser namorada pela tua pequena máquina cheia de adesivo e parafusos que caem. É verdade que não sei como agir, não sei fazer carinhas nem boquinhas, e tu dizes sempre que não, que fico muito bem, olha para aquele lado, sorri, agora não. E eu sempre a achar-me uma sem jeito, não me acho bonita.

Sei o que quero. Gostava de poder imortalizá-lo numa das fotos do miradouro. Mas não quero estar sozinha na foto. Pomos a máquina em automático e tu ficas ao meu lado. Na cidade que nos pertence, e que não me faz sentido sem ti para abraçá-la comigo. Pousas o braço lento sobre os meus ombros e ficamos a fazer tempo para nós. A desfiá-lo audazes, o tempo para nós não existe. Temo-nos um ao outro e isso basta.

Faz ainda mais frio agora. Salvo um guardanapo de ser levado pelo vento e nele anoto um pensamento. Leva-me para casa e faz amor comigo. Só mais uma vez.

10/06/2009

Porque bem lá no fundo, a família é o mais importante. É tudo o que nos resta quando tudo mais desaparece.

Porque és o meu maninho, porque és corajoso e lutador e destemido. Porque te fizeste homem mais depressa do que devias...

PARABÉNS TELMO!!!

08/06/2009

Nos primórdios de nós.

As nossas conversas tiveram sempre pano para mangas. Ora porque entrávamos em desacordo, ora porque muito havia por dizer, ora porque ficávamos apenas embevecidos a ouvir-nos falar sobre os nossos sonhos, as ambições, os medos. Mas, acima de tudo, inspiravas-me. Fazias-me escrever, e melhor do que isso, escrever bem, algo que tem vindo a acontecer pouco.

Numa dessas (muitas) conversas, falámos sobre a paixão, assunto inevitável, lembraste? E o resultado foi este:

Há palavras que nos fazem pensar e olhar lá para dentro, ver coisas que tendencialmente escondemos lá no fundo. Li hoje alguém que se interrogava sobre o antónimo de paixão. E que, como sabemos, não existe. Ou se está, ou não se está, como dizia essa mesma pessoa.

A mim, é a saudade que me deixa a pensar. Por ser um vocábulo exclusivo da língua portuguesa (vá, em crioulo eles têm o sodade, mas não conta), por também não ter antónimo, e por doer quando se sente. A paixão também pode doer quando se sente. Mas só se for rejeitada, se for devolvida ao remetente, como aquela correspondência cujo destinatário faleceu ou mudou de endereço. Mas a saudade não a podemos devolver a ninguém, não posso nem consigo deixar de a sentir. A paixão, posso senti-la por outrém, se a pessoa a quem a dirijo não a quiser. Mas a saudade... não posso dirigi-la a mais ninguém que não a pessoa que ma deixou quando partiu. Tenho que esperar que ela deixei de doer. Quando ela aperta mesmo muito o coração, enrosco-me a um cantinho e deixo-me ficar assim, shhhhttt.... baixinho, em silêncio, sem réstia de ruído, à espera que a saudade passe, que não dê conta que eu lá estou. E ela vai e vem como uma tempestade, quando passa é devastadora, mas quando parte... Deixa um rasto de lágrimas que o rosto teima em secar, deixa um coração pequeno e apertado.

A paixão, se bem que não tão dolorosa, também tem que se lhe diga. Tenho uma amiga que diz que chega a apaixonar-se 3 e 4 vezes por noite. Por alguma palavra, gesto ou sorriso de alguém que lhe capta a atenção. Essas paixões fugazes são um combustível insubstituível à vida. Agora que penso nisso, às vezes também me apaixono e nem dou conta. Fico ali, embevecida, a ouvir alguém falar, as palavras soam a música, uma música que enebria. Um copo de vinho, uma conversa, um cigarro. Rastilhos para uma paixão que pode durar alguns segundos, uma noite, ou toda a vida.

Mas a paixão, se não a quiseres, posso sempre endereçá-la a quem a mereça. Já a saudade. Tem remetente único, vai registada e tem aviso de recepção. E nem adianta o carteiro perder a correspondência, ou enganar-se no número da porta.
A carta da saudade sabe bem qual a porta onde bater.

Ao que tu reagiste...:

A saudade também está muito associada à paixão, ao amor. Só sentimos saudade de quem amamos ou gostamos muito e que por alguma razão não pode ou não quer estar connosco.
É um sentimento incontrolável, mas que muitas vezes nos ajuda a perceber o quão importante alguém é ou foi para nós.
Mas um dia a saudade deixa de nos provocar...e ficamos bem com ela.
Penso eu de que...
*

07/06/2009

Pronto está dito!


PAIXÃO

Estúpida mania de achar que as palavras cabem nos afectos. Que a paixão não precisa de ser pronunciada. E que basta o sabor dos beijos, o calor dos abraços, a intensidade de se fazer amor. Não chega, pois não? Há palavras que devem ser ditas e ficam sempre cá dentro, sempre há espera do momento ideal. E um dia damos por nós e puff. Vazio, dor, ausência, e um coração a transbordar de palavras que ficaram ali por um fio, a um nada de serem ditas. Palavras que assomam quando menos espero lembrar-me delas. Embrulha-se-me o estômago quando as sinto quererem sair cá de dentro. Contorce-se o corpo na tentativa de as conter. E depois uma lágrima, outra lágrima. E outra.


Problema de Expressão - Clã

06/06/2009

Armistício



Tréguas, por fim. Baixar os braços e sentir essa paz deliciosa e inenarrável tomar conta de nós.

o abraço


Aquele que eu sabia que traria redenção para ambos, o cair dos panos, o fim oficial das hostilidades.








good night and good luck

01/06/2009

ui ui

Luv ya, guys!




Encontrarmo-nos depois de um evento trágico não é nunca um processo fácil. Despir as amizades, e despojarmo-nos de um pouco de nós próprios, em cada amigo que sentimos afastar nessa mudança forçado que não se escolheu. É das partes mais dolorosas do processo. Custa separar, dizer adeus, ou um até já que seja. Sabemos que esse até já nunca mais saberá ao mesmo. Nunca será verdadeiro. No meio desse processo, às vezes reencontramos amigos que tínhamos dado como perdidos, ou que achávamos que nos tinham esquecido. E aos poucos a vida dá sinal de se ir refazendo, aos poucos, um passo de cada vez. Pequenos sinais que vamos agarrando de que há um mundo inteiro lá fora à espera de ser consumido. Mas os amigos... ainda assim, custa deixá-los para trás, perdidos que ficaram nas malhas em nós próprios nos enrolámos. Fica sempre uma saudade que tem um estranho sabor de ainda nos faltou viver tanto. É fodida, a vida.

31/05/2009


Subiu a Calçada de Carriche, passava a mão pelos estofos, pelo vestido, pela perna, o peito... Portishead e ficava fora de si ...give me a reason to love you... e sentir cada vez mais o calor tomar conta de si. Dançou por ele, a pensar nele. No Eixo N-S, o inesperado. O telefona que toca. Do outro lado, uma voz masculina ditar-lhe-ia o destino para essa noite. Esta noite ficas comigo. Toda ela estremeceu. Ela estava quente, a noite estava quente, Lisboa estava quente. Um incêndio profuso e prestes a contagiá-lo a ele também. Em breve, dançaria give me a reason to be a woman só para ele, à media luz, já semi-nua. Consumar-se-iam e consumir-se-iam.





Amo-te, pensou.

22/05/2009

O fim é sempre um presente que surge, um começo a sós para o mundo, tingindo a tela aguada pela madrugadora vontade de despertar. Urge rendido ao cansaço, o meu peito de tanto te chorar, mais aperto a alma quando morro no findar dos teus encantos.











(lampâda mervelha)





Há palavras que não precisam de ser ditas. Ou nós achávamos que assim fosse. E foi ficando o silêncio, quebrado pelo encontro dos corpos, pela cumplicidade dos gestos, pela ternura dos actos. Mas nunca a palavra, esse elo terrível, esse compromisso inegável. E no fim, o que fica? O vazio das palavras que não se disseram, a plenitude das entregas. Da cumplicidade, apenas que é insubstituível. E irrepetível.

O amor, sempre o amor. Vulneráveis, humanos. E o amor, sempre o amor.

21/05/2009

Tudo se resume. Tudo

A cidade esta deserta
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte
Nas casas, nos carros,
Nas pontes, nas ruas...
Em todo o lado essa palavra repetida ao expoente da loucura
Ora amarga,ora doce
Para nos lembrar que o amor é uma doenca
Quando nele julgamos ver a nossa cura.

Café para um.

Deseja tomar mais alguma coisa? foi a pergunta que me fez antes de levantar a chávena suja do cafá acabado de tomar. Sim, por favor, leve-me este coração e traga-me um novo, daqueles que vêm vazios.

Na verdade, limitei-me a agradecer e a sair dali o mais depressa que pude. Afinal, foi naquele café que começou o nosso fim.

Tenho dores guardadas em caixinhas. Caixinhas que se acumulam à minha volta, e cujos conteúdos pouco quero lembrar. Pessoas que perdi, situações que preferia não ter vivido, despedidas, saudades, perdas, mágoas, traições...



Convenci-me estupidamente de que tão depressa não haveria nenhuma caixinha nova. Afinal de contas, já merecia alguma felicidade. E tive-a, em pleno, pura, líquida. Tão feliz que era...! Mas essa felicidade ontem passou a dor. Uma dor que vai levar o seu tempo a caber dentro de uma qualquer caixinha, de tão grande que a sinto ser. E logo quando eu já nem me lembrava que as outras caixinhas existiam. E de repente, todas à tona, mais frescas do que nunca, mais presentes, como num sórdido cortejo de recepção à caixa que está para vir. . .



Aceito bálsamos milagrosos...




18/05/2009

naquela hora, em que as sombras ficam mais compridas. em que tenho medo de caminhar sozinha, porque escurece e todas as coisas perdem a definição. nessa hora, eu quero ter a tua sombra comprida ao lado da minha. e juntos esperaremos que caia a noite, e os nossos corpos, fluidas sombras, ficarão juntos. toda a noite.