13/12/2009


Odeio este meu rabo de cinquenta anos. Longe da glória de outros tempos, onde nada me diminuía quando comparada com essas putas com que hoje te regalas. Já não reconheço a minha voz, consumida pelos cigarros intermináveis fumados após cada desilusão, a cada noite só, a cada grito. Rouca, foi-se o brio de outrora, o esplendor com que me entreguei a ti e que fui lentamente perdendo.

Os sinais da discussão recente são evidentes. O copo partido, o cinzeiro caído, as cinzas espalhadas, as beatas desordenadas. Como eu, como tu, como a nossa vida. Os negócios, sempre os negócios. O tempo, sempre amanhã, sempre na próxima semana, no próximo mês, no próximo ano. As viagens adiadas, os jantares frios, o meu corpo inerte esquecido na cama.

Esta madrugada, um último suspiro quase inaudível, enquanto te esperei só mais uma vez. Uma maleita aleatória das quais padeço fez-me sucumbir a uma morte silenciosa, anunciada, mas jamais esperada. Morri só, na alvura assustadora dos lençóis, sempre vazios. Não sei por quantas horas mais ficará o meu corpo aqui jogado. Talvez chegues esta noite, embriagado e envolto nesse perfume barato que trazes do corpo de outras. Chegarás quem sabe tão ébrio que nem sentirás o cheiro da minha morte. Provavelmente cairás na cama, a meu lado, para apenas na manhã seguinte te dares conta da minha existência, a qual há muito esqueceste.

Sentir-me-ás agora? Lamentarás todo o tempo adiado, o amanhã, o depois, o próximo ano?

Acorda, foda-se! Aproxima-se a hora do meu funeral.

4 comentários:

Anónimo disse...

Senti...mesmo! Quase que dei por mim a olhar pelos olhos dela. Mesmo intenso!
Está mt bem escrito, para não variar*

Anónimo disse...

Andas é a utilizar mts palavrões!...=P

lampâda mervelha disse...

E mesmo que acorde.... e mesmo que acorde...

garfanho disse...

o inicio está fantástico: "Odeio este meu rabo de cinquenta anos. Longe da glória de outros tempos, onde nada me diminuía quando comparada com essas putas com que hoje te regalas."
o que segue também.