28/05/2008

O que o acordou foi o silêncio. Primeiro, o do despertador que não tocou à hora combinada todas as manhãs. Depois, o de outra respiração, que devia ouvir e não ouvia. Estendeu a mão para o quente do outro lado da cama e encontrou o frio. Apalpou e encontrou vazio. Então, sim, despertou completamente.

Miguel Sousa Tavares, Não te deixarei morrer, David Crockett

E pensou no quão diferentes as coisas poderiam ser. Atormentavam-lhe os pensamentos, os vestígios do cheiro dela. AMOR ÓDIO AMOR ÓDIO AMOR ÓDIO. Era assim a promiscua relação que partilhava com o corpo dela. Ora atracção, ora repulsão. O corpo dela fazia-o pensar em arroz doce. No arroz doce que a avó fazia e em cujo tacho ele lambuzava dedos, mãos, cara. Que disparate, arroz doce. Uma mulher comparada a arroz doce. Atina, Miguel!

Pensou como seria se não a expulsasse da sua cama enorme, após cada sessão fotográfica, seguida de jantar, seguida de sexo, seguida de vazio. Conhecia-lhe cada curva de cor, cada poro, cada rugosidade da pele. E no entanto, sentia-se um estranho sempre que ocupava o corpo dela. Não estava de todo preparado para a cumplicidade. Muito menos com o corpo daquela mulher, que amava e odiava.

Pensava nela, tentando esquecer que ela era mais do que um corpo feminino. Tinha ideias fortes, personalidade intensa, objectivos rígidos. E isso atraía-o, ao mesmo tempo que o fazia sentir-se diminuído. Onde é que já se viu, uma mulher destas ocupar o meu espaço. Não, não podia nem devia ser assim. Queria uma mulher submissa, uma mulher que fizesse figura de corpo presente, que não questionasse nem se impusesse. Era machista e - pior - assumia-o sem complexos.

E aquele corpo viera agudizar ainda mais esse sintoma de macho que cultivava em si desde tenra idade. Quanto mais a tinha, mas a queria repudiar, mais a queria agarrar, mais lhe queria bater, mais a queria possuir, mais a queria afastar, mais a queria consumir. Enchia-lhe o estúdio de uma teimosa névoa de tabaco, indiferente aos avisos dele. Com atenção, podia-se encontrar um ou outro cabelo dela espalhado pelo chão. Uma collant esquecida, um resto de baton no lençol. De dia para dia, ia marcando o seu território, na mesma medida em que o território dele se esbatia, pressionado pela força que ela emanava a cada investida nocturna.

Assim se arrastavam, desconhecidos na cumplicidade, cumplices no AMOR ÓDIO que os unia e separava.


#Imagem:
Nuno Bernardo

2 comentários:

Esparsa disse...

gostei imenso deste texto. Pulsa.

S. disse...

palavras que ora aquecem, ora arrefecem, e sempre envolvem :)