11/03/2008

Viena acordara ainda mais cinzenta nesse dia do que em todo o decorrer do Inverno. Como que pressagiando esse primeiro, difícil, tímido rendez-vous. Algumas vinte japonesas konichiwa para ti também acumulavam-se na porta do Café Central, o mais emblemático da cidade. Pés apontados para dentro, costas curvadas, munidas de Canon's e Sony's e HP's, para não deixar escapar nenhum segundo de cidade.

E ela nem sequer tinha nenhum ódio de estimação contra os japoneses. Mas agora, que fixava insistentemente o olhar na porta, e não via senão rostos orientais... começava a sentir uma raiva miudinha por aquele povo. Apenas porque estava ansiosa por vê-lo chegar, não porque a xenofobia fosse defeito seu. Vamos sucumbir ao cliché e levar camisolas vermelhas. Já não se lembrava de quem partira semelhante frase, de tão ridícula que agora lhe soava. Mas lá compareceu, camisola vermelha em riste, pronta a enfrentar esse desconhecido misterioso. Já não se lembrava também porque começara a falar com ele, nem de como ele fora parar ao seu messenger. Mas a verdade é que se vinham falando fazia dias, meses ou anos. Já não se lembrava.

As japonesas não desarmavam. Entretanto chegavam também alguns americanos, com ar de nova-iorquinos. Porra, saiam daí! E nem sinal da camisola vermelha dele. Nem as mil calorias da Sacher Torta que devorava a faziam desviar o olhar da porta. E até o Peter Altenberg, indiferente à sua ansiedade, a começava a irritar. Ali tão quieto, tão frio, tão reluzente. Grrrrr! Só queria que ele chegasse depressa, que pusesse um fim àquele sufoco, queria ver a camisola vermelha que era o ponto final de dias, meses, anos de espera. Já não se lembrava.
Derrotada pela espera, baixou os olhos por alguns segundos. Ignorou as japonesas curvadas e os americanos trendy. E acabou por perder também a saída furtiva de um homem na casa dos trinta. De camisola vermelha.

5 comentários:

curse of millhaven disse...

temos aqui um talento... lindo texto, adorei! :)

Anónimo Juvenal disse...

podias escrever um livro só de pequenos episódios como os que tens aqui postado.
Mais um muito bom!
Temos talento!
=)


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Ervilha Escriba disse...

Eu aconselho sempre camisola amarela e chapéu de coco....

konichiwa do Ervi :)

Druiel disse...

e assim se torna viciante um blog.

Obrigada por um blog assim.

Jaime disse...

Excelente. Estás em forma. Nunca cortes os pulsos.