10/03/2008

Uma penumbra silenciosa pairava sobre o areal imóvel, irreal, suspenso. Nem o mar para lhe vir beijar os pés. Sentou-se nua no beiral da casa branca que se estendia sobre a praia, essa praia que agora estava deserta, que a acolhia nua como agora se apresentava. Charro na mão direita, Chianti na mão esquerda, o pouco que ainda sobrava da última passagem pela Holanda e Itália. Fechou os olhos com força, desejando que quando os abrisse, a chuva lhe lavasse a pele imunda. Mas nem a mais leve brisa soprou, nem vivalma cruzou o areal vazio, nem o mar subiu centímetro algum. Sentiu a pele arrepiar-se com o ar ainda frio de Abril, enquanto recordava o pincel que lhe cruzara a pele na noite anterior. Numa tinta de cor que não sabia definir, uma cor que a deixava ansiosa pelo tinto do vinho, pela dormência da ganza. Deitou-se na madeira húmida do alpendre e deixou-se ficar, presa pelos elementos. Mais um pouco de vinho, mais um pouco de ganza. E depois a dormência dos sentidos.
No pouca sobriedade que lhe restava, ecoavam as palavras sussuradas no breu da noite.
A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar
Por isso fecho os olhos
(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)
Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher
E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência
Nua nos meus braços
(...)
Só mais um gole, só mais um bafo...

7 comentários:

Vanessa disse...

Deitou-se na madeira húmida do alpendre e deixou-se ficar, presa pelos elementos.

:)

sounds good! *

Akinol disse...

See Here

Joanne disse...

Muito bom! Mesmo muito bom!

planeta Claudiano disse...

Será que estamos em mais uma fase parecida da vida? humm. Para quando um bafo e um gole juntas?

looT disse...

Gostei da forma como inseriste o poema de Alexandre O´Neill no teu texto, terminando com a tua frase :)

Jaime disse...

Belo texto. Melhor Chianti que ganza, Itália será sempre Itália!

anna disse...

lindo poema. combina tão bem contigo, e com o que escreves.