11/02/2008

Troco um poema por um beijo.

O José Luís Peixoto disse esta semana na Única "Troco um poema por um beijo". Não sei porquê, a frase mexeu comigo. Talvez por gostar do JLP e achar que tudo o que ele diz/escreve/faz é genial.
Achei de uma subtileza inédita trocar um poema por um beijo. Ele, que é um homem de letras, não hesita perante tal troca. Escolhe o beijo em vez do poema. Sensato da parte dele, se pensarmos em quanta poesia pode caber dentro de um beijo. Confesso que sou pouco dada a esses romantismos. Não entro em êxtase quando me apaixono, não sinto o mundo perfeito à minha volta, a vida não ganha outra cor. Sou fria. Como um bloco de gelo. Faço finta de "durona", nas palavras de alguém. Deve ser por isso que choro nos transportes públicos. Por rejeitar a poesia das coisas, por sentir a voz embargada perante os desconhecidos que se cruzam comigo nos transportes e permanecer impávida e serena perante um apaixonado.
Eu talvez trocasse um beijo por um poema. Um amor falhado pode levar uma mulher a fazer essas escolhas. E não chegaria uma dúzia de JLP's para me fazer mudar de ideias. Um poema é meu. Posso rasgá-lo do livro e dormir com ele debaixo da almofada.

Mesmo que milhares de pessoas o leiam.


Mesmo que deixe de ser publicado.


Mesmo depois de o poeta morrer.


O poema fica ali comigo, as palavras a embalarem-me no sono, na simetria das rimas que não entendo. Mas o beijo... Pode ser meu, como pode ser de outrém. E se o amor for falhado, o beijo esfumaça-se, voa para longe, não posso rasgar os teus lábios e guardá-los debaixo da almofada para te beijar de noite. E como tu não és a Fada dos Dentes, não me virás beijar a meio da noite quando eu me perder de amores. E aí fico sem o beijo.
Mas o poema será sempre meu.




#Imagem: Beijo IV, de Munch

6 comentários:

Maria del Sol disse...

Se calhar por ser um bocado como tu (as pessoas às vezes chateiam-se por nunca me cansar de demolir com o meu sarcasmo tudo o que é delico-doce), acho que a pergunta que fizeste pode ser feita de maneira inversa: quantos beijos cabem num poema? Um poema não é um beijo em concreto, pessoal e finito, é a essência (palavra pedante, mas a única que me ocorre) de todos os beijos dados e o motor de todos os que se virão (ou não) a dar.

Não sei se este comentário faz muito sentido, ou se é a proximidade do Pesadelo de Elm Street dos Solteiros (14 de Fevereiro) que faz isto comigo :P

Maria del Sol disse...

Se calhar por ser um bocado como tu (as pessoas às vezes chateiam-se por nunca me cansar de demolir com o meu sarcasmo tudo o que é delico-doce), acho que a pergunta que fizeste pode ser feita de maneira inversa: quantos beijos cabem num poema? Um poema não é um beijo em concreto, pessoal e finito, é a essência (palavra pedante, mas a única que me ocorre) de todos os beijos dados e o motor de todos os que se virão (ou não) a dar.

Não sei se este comentário faz muito sentido, ou se é a proximidade do Pesadelo de Elm Street dos Solteiros (14 de Fevereiro) que faz isto comigo :P

Maria del Sol disse...

(oops, desculpa o duplicado... a net é mesmo traiçoeira :S)

Ema disse...

eu cá sou mais do beijo...apesar da finitude dele, em confronto directo aqui no teu post com o perpétuo poema. como sou muito dada a afectos, prefiro-o. :)

Jaime disse...

Peixoto, és dos meus. Eu cá, por certos e determinados beijos, trocava as obras completas de Camões à cabeça, e mais as de Shakespeare para completar. :-)
Mas o que tu escreveste também é lindo.

Pips disse...

Hum...
Compreendo o que dizes, no entanto, penso que há algo de extremamente pessoal num beijo quando ele é realmente sentido de ambas as partes. Porque há muitas palavras ditas com aquele beijo, palavras que às vezes nem sabemos bem, e há o toque, o contacto com o outro, que um poema nunca conseguirá proporcionar. Também é verdade que tudo isto pode voar para longe (como dizes), mas as recordações ficam. Fica uma história, que és tu.
Trocando eu, ou não, um poema por um beijo, considero o teu post excelente.
Parabéns :-)