20/02/2008

O primeiro dia do resto da tua vida



Tal como toda a gente, berrei no meu primeiro dia de vida. Esperneei, chorei, esbrecejei, e fiz todas aquelas coisas que os recém-nascidos fazem quando vêm ao mundo. Mas depois tu abraçaste-me e amamentaste-me e aqueceste-me, e quase posso apostar que me calei quando me aninhei nos teus braços. Não podias saber muito nos teus 19 anos. Inocentes já não seriam, inexperientes talvez. Foi o primeiro dia da minha vida e é claro que não me lembro dele.


Mas depois há aquela expressão do "primeiro dia do resto da tua vida", e desse lembro-me perfeitamente. Tu estavas lá também nesse dia, mas não me aninhaste. Passei-te a mão pelo rosto frio e confirmei a notícia que menos desejava. Tu tinhas morrido, e não havia nada que eu pudesse fazer. Ainda não fez um ano que começou a minha vida nova, cheia de dias cinzentos, cheia de lágrimas em autocarros e carruagens de metro. Nesse dia em que a minha vida começou outra vez, ninguém me indicou o que fazer. Gostava que tivessem pegado num mapa, daqueles mapas bem básicos, e me tivessem dito "agora vais por ali, ao fundo viras à esquerda, segues em frente e depois acontece __________". Mas não. Nesse dia não houve mapas, nem abraços, nem setas, nem risos, nem amor, nem tu.
Na minha vida nova, os sorrisos foram sendo sempre menos, as alegrias diminutas. Escondi-me atrás de livros e de viagens cheias de alegrias efémeras. Escondi-me dentro de mim e não queria sair de lá. Talvez por pensar que tu virias ter comigo se, no silêncio das noites vazias, eu ficasse bem quieta, bem silenciosa. E tu ias chegar, tocar-me no ombro, segredar as palavras que eu queria ouvir.

Na minha vida nova, já não pousas aquele toalhão turco coçado na beira da banheira para me tirares do banho e protegeres das frias paredes da casa. Também já não separas os meus caracóis indomáveis fio a fio para os organizares numa trança eterna que levo para a escola com o lanche que me fizeste. Também já não vamos à praia comer gelados, beber cervejas, comer tremoços. E já não te metes no meio de uma estrada cheia de água, onde corres o risco de ficar atolada, para me ires buscar à escola que está a ser evacuada por causa das cheias. Nem me emvergonhas mais quando vamos no meio da rua e tu me queres dar a mão e beijar em público. E já não fazemos inveja ao mano, quando tu me beijas mais a mim do que a ele, porque ele às vezes é quadrado e frio e não quer beijos teus nem meus. Na minha vida nova, não vamos mais discutir porque eu quero que tu leias e que oiças música, e tu fazes birra porque preferes estar na rua a conversar com as tuas amigas. E já não há a tua alegria infantil quando vamos à H & M e tu encontras coisas que te servem. Nem me obrigas a descer a Almirante Reis com dois dias de carta para irmos ao Martim Moniz. E já não te incomodo mais com perguntas sobre o pai que não conheço nem nunca conheci.
Na minha vida nova, há muitos espaços vazios deixados por ti que nunca irei preencher. E paira no ar uma dor incomensurável, desmedida, que não cabe no meu coração. É por ele ser tão pequeno que os tranportes públicos já conhecem de cor as minhas lágrimas. É essa a minha vida nova. Um enorme vazio por preencher.

No fundo, é isso, a solidão: envolvermo-nos no casulo da nossa alma, fazermo-nos crisálida e aguardarmos a metamorfose, porque ela acaba sempre por chegar. August Strindberg



12 comentários:

Anónimo Juvenal disse...

Ninguém poderá nunca substituir essa senhora, que tinha de ser linda, para poder trazer ao mundo outra senhora tão bonita como tu. Nem isso faria sentido. Esses momentos ficarão para sempre guardados no teu coração que agora se mostra tímido.
Mas não te esqueças que tens muita gente que te adora, que te ama, que te sente e que te vive!...O teu irmão os teus amigos pelo menos vão estar cá sempre para ti!
Conheço-te há muito pouco tempo...conheço-te mal, mas vou-te aprendendo, conhecendo e sei que tens uma força que me faz inveja.
Mesmo quando choras por dentro, consegues manter esse sorriso lindo na cara e olhar o mundo à tua volta com o teu olhar doce...O mesmo olhar com que ela olhava o mundo, feliz por te ter...
Saíste-te muito bem Claudi! És uma mulher inteligente, bonita e muitas mais coisas boas que talvez haja quem melhor possa enumerar. Por isso tens concerteza um futuro cheio de coisas boas pela frente.
A mim resta-me ficar contente por ser teu amigo e ter um cantinho nesse teu coração tímido, mas que um dia vai voltar sorrir sem medos!

=)

Tamos cá para ti pipoca!*

Laranjinha disse...

Coragem!*

Maria del Sol disse...

Cláudia, desta é que me deixaste mesmo sem palavras. É um acto de coragem impressionante não só contar o facto mais doloroso da tua vida até agora como fazê-lo com uma dignidade impressionante, que passa por evitar o "photoshop", mostrando toda a tua vulnerabilidade. Já o disse uma vez mas não me importo de o repetir, porque é a verdade: eu admiro-te.

Um grande beijinho!

Maria del Sol disse...

E também é impressionante ter repetido o adjectivo "impressionante" em menos de duas linhas, mas tens de me desculpar, ainda estava sob o efeito emotivo do teu texto ;)

d. disse...

E ficou tanto por fazer, dizer, aprender...

Ainda hoje, por vezes, me parece ver a minha Mãe, noutras mulheres com que me cruzo na rua... mas afinal...

Ema disse...

estas tuas contínuas homenagens, que hão-de ser perpétuas também, não deixam nem param de me impressionar. sinto uma vida à minha frente, que escapou
(sabes, como a areia foge das nossas mãos?)
e o sentimento de impotência é tão grande, que só me vira para os meus próprios mortos. por isso o nó na garganta. o nó de que já falei. o nó que fica quando me ponho no teu lugar, ou quando fico quieta no meu, com eles.



não percebi onde me citaste...:)

curse of millhaven disse...

só me apetece abraçar-t, ainda que seja uma desconhecida.

Anónimo disse...

Miúda!
O Mundo anda triste... tu andas triste... o Mundo anda triste... Tu andas triste... Qual Requiem fazes tu para apelar a beleza do triste! Vive! Berra! OS teus estão entre ti, dentro de ti, vivem por ti!

Menphis disse...

Vim aqui várias vezes, e dessas vezes quis escrever um comentário bonito daqueles comentários que pudesse transmitir o sentimento que tive ao ler o teu post, mas não conseguí. A tua escrita ultrapassa os meus sentimentos. Como diz a tua amiga " gosto tanto de te ler ".

planeta Claudiano disse...

Será banal dizer que fiquei à beira das lágrimas? Senti a tua dor como se fosse minha, apesar de nunca ter passado por isso. No sábado a minha telefonou-me a dar o número de telemovel do meu pai, que passados 26 anos ainda não conheço. Será que nos podemos conhecer? Podíamos partilhar as nossas "dores".

kimaya disse...

minha querida,
eu adoro-te. simplesmente.
Adoro a tua força.
lembra-te que a tua mãe deu-te alguns peixinhos, mas ensinou-te principalmente a pescar, como ela o fez.
Saudades
Tania
(nada do que eu possa dizer muda a realidade, digo apenas que gosto de ti, como és e k tenho saudades das viagens de carro até lx ou pa loba... dos cafes em sta rita. saudade)

Lover disse...

assim meio na transversal entrei no blog do senhor ou senhora com nome estranho, e que por sinal é uma senhora, com um nome quase decifrável...li-o na diagonal, saltando posts, (cheguei do trabalho e estou cheia de fome)...mas parei aqui! e sem conhecer a menina
h4ddrunk3r... fui até ao primeiro dia do resto da minha vida, não aquele em que nasci de rabo e fiz a minha mãe gritar para que eu gritasse, não, esse também não me lembro...mas lembro-me bem dela a falar dele com alegria! fui até há um ano e 3 meses atrás...em que me tiraram tudo, tiraram-me a terra e o céu...e disseram-me agora tens de continuar, sem rodinhas na bicicleta e aguenta-te...esse dia não esqueço, às vezes não sei se foi há muito tempo ou ontem, a dor e a saudade misturam-se com uma omnipresença dela a cada passo que dou, em cabelos longos e loiros que vejo nas ruas, em expressões dela, só dela e que de alguma maneira me dizem, "tem calma filha, não chores, eu estou aqui e estarei sempre!"...acho que palavras não chegam...e para ti nada é novidade!
Desculpa-me o abuso e o testamento, mas não me contive...agora vou comer para depois desbravar mais um bocadinho do teu espaço!
Beijo e obrigada por esta partilha, menina do nome estranho!