07/02/2008

Alguém falava algures sobre os olhos.


Eu gosto é de mãos. Há mãos que se dão extraordinariamente bem. Não precisam de cruzar olhares para se entenderem, para saberem o que a outra mão sente.


Mãos que se tocam ao de leve, que se sentem mutuamente e que se querem violentamente.

Há mãos perigosas também. Que provocam desejos inversamente proporcionais à quantidade de pele que está em contacto com a mão do outro. Pouco tacto, desejo incomensurável.


A mão é o fim do membro a que chamamos braço. Eu acho que a mão tem mais de início do que de fim. A mão começa, trabalha, adormece, molda, embala, cuida, pega, acaricia.


Não tenho por hábito citar e não gosto de o fazer, mas o Manuel Alegre disse-o bem no soneto...


Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

Manuel Alegre, O Canto e as Armas, 1967



Pouco terá a ver com a minha visão das mãos.
Mas tem a ver e muito com outra coisa que amo e defendo, a LIBERDADE. Essa liberdade que a Ditadura levou e que estimulou os poetas, músicos e cantautores deste país a insurgirem-se contra a privação dos seus direitos. Tempos áureos, esses. Hoje, sei que é cliché, mas parece que nada se faz, que nada acontece. E a culpa é também minha, é tua, é de todos os que se acomodam e não querem mais, não lutam, não criam.

Sinto-me tão de esquerda hoje. Hum.




# Foto de Emanuel Couto
Moldar a Água

10 comentários:

Maria del Sol disse...

É mesmo verdade, as mãos também são um cartão de visita muito revelador, e um dos que primeiro reparo quando conheço uma pessoa. Gesticulam. Estendem-se. Escondem-se. Até há quem tente ler nelas o futuro. Não deve ser por acaso ;)

PDuarte disse...

«E a culpa é também minha, é tua, é de todos os que se acomodam e não querem mais, não lutam, não criam.»
Eu crio. E também creio que tu crias. Se crias logo lutas. Se lutas não te acomodas.
Também gosto das mãos, só que ao contrário de ti não acho que elas sejam o principio dos braços, mas sim o final do cérebro.
E há mãos tão belas nas mulheres.

Um beijo.

curse of millhaven disse...

tb adoro mãos!!

Vieira Calado disse...

Aconteceu-me a mim, ter um livro de poemas proibido durante o Fascismo.
Foi em 1962 e chamava-se "Os Sinais da Terra"
Cumprimentos.

Anónimo Juvenal disse...

As mãos tanto podem ser o princípio, como o fim de algo...não só dos braços ou do cérebro...As mãos são os nossos batedores...percorrem montes e vales à descoberta...para abrir caminho...para saber se é seguro continuar...ou se devemos parar e recuar...
As mãos têm muito que se lhe diga...
*

Ema disse...

também aprecio, é verdade. não é que vá reparar nas mãos de um homem. não reparo, e até gostava. a maioria das mulheres põe as mãos masculinas num pedestal. gostava, sinceramente, mas não reparo.
do que eu gosto é do tacto, do toque em si, que tem esse poder de sedução monstruoso. acho que se conquista com os olhos, para depois deixar o caminho para as mãos explorarem, como quem "apalpa terreno", com ou sem aspas. :)
não há como alguém nos dar as mãos, no sentido figurado ou literal; o acto que verdadeiramente nos faz sentir seguros.

anda embora, que as espetadas estão a descongelar.

Francisco disse...

eu é mais a pele.

Jaime disse...

Sim, há mãos perigosíssimas. Essa do "pouco tacto, desejo incomensurável" está óptima.

Lembro-me dos meus pais terem em casa uma edição das proibidas do "Canto e as Armas", do Alegre. Foi com essas mãos, com esses cantos e com essas armas que se fez o 25 de Abril. Devemos-lhes isso.

É diferente lutar pela própria liberdade, e em liberdade, lutar pelo que julgamos ter direito. A última luta é menos gloriosa, e, conceptualmente, talvez mais exigente. Pela sua própria natureza, será também um pouco mais individualista...

Menphis disse...

Como disse no comentário do post que falas, as mãos, conjuntamente com os olhos, são a minha parte favorita do corpo humano :)(pelo menos do meu :))

e, sim, a culpa é toda nossa, vamos mudar o estado das coisas ?

Rosa dos Ventos disse...

Eu a ler o princípio do teu post e a lembrar-me das "Mãos" do Manuel Alegre e elas a chegarem, logo mais abaixo...
Linda a foto, o teu texto e o poema, claro!

Abraço