11/12/2007

Memória Olfactiva


Hoje senti no ar o cheiro àquelas maravilhosas sopas de leite que a minha avó me levava à cama nos meus tempos de petiz. Com o tempo, o leite passou a café e fez-se ser alvo da chacota das pessoas com quem fui partilhando casa. Como é possível não compreenderem o maravilhoso pitéu que resulta da junção do pão que ninguém quer comer com o café? Inclusivé, é uma óptima solução em tempos de crise, basta ter café e pão duro em casa e não passamos fome. Salvou-me, em inúmeras situações, de definhar de fome.


A minha avó era um ser adorável. Como se não bastasse ter me ensinado a comer as mágicas sopas de café, teve uma paciência de Job para mim e para o meu irmão. Tratá-mo-la muito mal, confesso. Afinal, não é fácil ser adolescente e partilhar casa com mãe, avó, avô, irmão, cão, gato, galinhas e de vez em quando os primos que apareciam para dormir. E a avó estava sempre ali à mão para descarregar essas frustrações mal processadas. É horrível ser adolescente.


Mais horrível ainda é ter perdido a minha avó sem ter tido tempo de lhe mostrar o quanto ela significava para mim. O quanto eu teria gostado de abraçá-la mais vezes, de não lhe ter pregado aquele susto quando peguei pela primeira vez no carro, de não lhe ter respondido torto quando ela me dizia que eu tinha que comer porque os meninos morriam à fome em África. Esses meninos estavam muito distantes de mim, mas a minha avó estava ali ao meu lado e eu não lhe disse que a amava.


A minha avó era uma grande mulher. Segundo consta, o meu avô teve alguns flirts aquando das suas deambulações país fora. E a minha avó, qual heroína silenciosa, calou, foi companheira, amiga, esposa, mãe. E acompanhou-o nos últimos anos de vida, silenciosa e sofrida, enquanto ele definhava às mãos do alzheimer, parkinson e de quantas mais doenças o corroíam. Esgotada pelo esforço que requer o acompanhamento de uma pessoa nesse estado, o enorme coração da minha avó não resistiu e sucumbiu no dia 9 de Dezembro de 2003, numa cama de hospital. Logo ela, que toda a vida se recusou a entrar em hospitais.


O meu avô ainda ficou connosco mais um ano. Após o desaparecimento da minha avó, ele chamou pela sua "Morena", como carinhosamente lhe chamou toda a vida. Deixou de comer, de falar, de viver, prisioneiro de um corpo cadavérico e de uma doença que lhe retirava toda a lucidez. Depois de uma vida em comum, eis a maior homenagem que ele podia prestar à minha avó: esquecido do mundo, de nós e de ele mesmo, ele sentiu que ela tinha partido. E chamou-a.


Mas ela já não ia voltar.


No dia 3 de Dezembro de 2004, também o meu avô nos deixou. Contra todas as expectativas, poucas horas antes de partir, ele reconheceu a minha mãe e as restantes pessoas que estiveram com ele nessas últimas horas. Capricho estranho que é esse da morte, a lucidez esmagadora que o fez ver ao que esteve reduzido naqueles últimos três anos de vida (vida?...).


Hoje admiro a minha avó por aquilo que foi e sofro por aquilo que não lhe dei, pelas palavras que não lhe disse. Um "obrigada" no momento certo teria feito toda a diferença.


Avó, obrigada por tantas sopas de leite.

1 comentário:

a dona do blog disse...

Estás a ver se me pões a chorar, não estás?
As avós são realmente criaturas adoráveis. São nossas mães ao quadrado, no que está implicado quantidades astronómicas de comida, doces e carinho...
Obrigada por tão louvável homenagem às avós e às sopas de leite, noutras formas, que todas elas nos fazem. A memória olfactiva serve-nos mesmo pra isto, para relembrar. Mas de modo diferente, é ainda mais melancólica, é ainda mais profunda. Às vezes dou por mim em sítios onde não estou.