09/04/2008

Clara

É indescritível o conforto que tenho encontrado no cigarro. Oiço a folha do tabaco crepitar, devagar, enquanto inspiro o fumo até aos meus pulmões. Encontro nesse cigarro uma estranha e ingrata paz, que pouco mais me traz que a ilusão de uns minutos em sossego.

Não esqueci a conversa que tivemos nas escadas da Piazza di Spagna, em frente à igreja, em frente aos artistas de rua, aos turistas, aos romanos, à cidade. Falavas-me da tua vontade em virar costa a Roma, a Itália, a essa cidade frenética que te engolia todos os dias no seu sufoco irrespirável. Também eu hoje e sempre sinto essa vontade. Desde que me conheço como pessoa. Uma vontade gritante de virar costas, sempre e a tudo. Voltar costas a Belém, aos Jerónimos, a Sintra, ao Castelo e ao Chiado, à Baixa e aos Restauradores. Quero entrar num avião infinito que não tenha destino e encontrar-te algures no globo. No Irão, no Chile, na China ou no Congo. Queria comprar esse bilhete que não tem preço. Esse bilhete só de ida que oferece uma viagem sem regresso rumo à liberdade. E Clara, quando essa liberdade for minha... Não há carta que te escreva que possa conter a minha euforia. A Cláudia que tu conheceste nunca mais será a mesma, pois ter-se-á encontrado a si própria. Ter-me-ei encontrado, Clara.

Esta noite sonhei que a Natalie Portman e a Norah Jones tinham sexo desenfreado num motel de beira de estrada algures no deserto do Nevada. Talvez por ter visto aquele filme do Wong Lar-Wai onde a Norah tem um caso com o Jude Law. O que não deixa de ser estranho, pois mais depressa me imaginaria a mim nos braços dele, do que aquelas duas enroladas uma na outra. Nem sei qual a relevância de te estar a contar isto. Talvez apenas por isso mesmo, por ser irrelevante.

O dinheiro tem tomado conta da minha vida. A ginástica incessante e esgotante que faço por esticá-lo, por tentar reavê-lo, por querer encontrá-lo algures, não sei onde, e saldar as minhas dívidas. Liquidar esses tormentos que me assombram os dias, que me roubam lágrimas, que me provocam aquela dor no peito de que te falei, ou a tensão no fim das costas. Sabes, como quando chegávamos a casa embriagadas das noites, do calimoxo e das vodkas que bebíamos sem pensar que amanhã. E tu pousavas as tuas mãos nas minhas costas e mandavas essa tensão embora. E depois beijavas-me e fazias-me adormecer ao teu lado. Com as tuas mãos nas minhas costas. O calor que me passavas, o conforto, o esquecimento de nós mesmas. Entregues uma à outra. E eu cheia de sombras e medos e incoerências, provocadas pelos teus beijos.

Nunca mais nenhuma mulher me beijou. Nem nunca mais nenhuma mulher quis que eu apanhasse o avião infinito com ela. E eu fiquei aqui, em Lisboa, a sonhar com Roma e com a Piazza di Spagna. O céu nunca mais deixou de ter a cor cinzenta e os meus sonhos passaram a estar povoados de incêndios, de manias pirómanas que desde então não entendo.

Clara, ainda aí estás? Porque começo a sentir-me como aquela estátua imóvel de que tanto gostavas. Envernizada, fria, exposta aos caprichos das intempéries, à chuva e ao vento. E ela nunca há-de sair dali. E eu começo a sentir um medo paralisante de também nunca sair daqui.


Às vezes tenho dúvidas de que alguma vez tenhas sequer existido.


#Nuno Videira

15 comentários:

Maria del Sol disse...

Enquanto tu sonhavas com voos que não aconteceram (ainda), a minha imaginação voou ao sabor do teu texto. Gostei muito do que li. :)

Mr.T disse...

Bolas. Cada vez melhor. Que grandes textos que andam por aqui. Bellissimo!

Menphis disse...

Ainda dizes que a tua fonte de palavras secou. Ela é uma fonte de uma inesgotável beleza.

Anónimo disse...

Cabe tanto neste texto, tanto! Ai...

Abssinto

Vanessa disse...

tenho vindo aqui arranjar palavras para este texto. não consigo comentar. é sempre assim quando gosto muito. e que bem que escreves, carago! :p *

Mia disse...

Texto lindíssimo. Merecia ser enviado, de facto, como uma carta.
;) Mia

Laranjinha disse...

Soberbo!
E envolvente... por completo!*

Akinogal disse...

See Please Here

RV disse...

parabéns, belo texto sim senhora,

bjs

Anónimo Juvenal disse...

=)


Muito bom Claudi!
Espero que a minha letra esteja tão boa ou melhor!...=P

*

d. disse...

Também eu gostava de um bilhete de avião desses! Mas voei um bocadinho enquanto lia...

Jaime disse...

Tu escreves mesmo bem, pá! Parabéns.
As notícias que me chegam levam-me a pensar que se está bastante melhor em Belém ou em Sintra do que "no Irão, no Chile, na China ou no Congo", mas percebe-se a ideia. :-)

planeta Claudiano disse...

Lindo. E muito sonhamos nós...

Ema disse...

rita.

H4rdDrunk3r disse...

Ema... Rita?!