22/04/2008

Adam Smiht descrevia n'A Riqueza das Nações um dos conceitos económicos que mais gozo me deu estudar. Dizia o senhor que numa economia de mercado, apesar da inexistência de uma entidade coordenadora do interesse comunal, a interação dos indivíduos parece resultar numa determinada ordem, como se houvesse uma "mão invisível" que os orientasse (mais aqui). Claro que falamos de um cenário hipotético, onde as condições de mercado teriam que ser ideais.

O que na verdade não acontece.

O mesmo se passa nas relações do gajedo com o sexo oposto. Na economia das relações, não há nenhuma supra entidade que coordene os encontros e desencontros entre a gaja e o(s) seu(s) gajo(s). Por vezes, podemos ter a noção de que existe de facto uma mão invisível que induz uma determinada ordem no modo como interagimos com o sexo oposto. Mas tal como sucede com a economia de mercado de Adam Smith, as condições da economia das relações são tudo, menos ideais. Nem sempre o gajo que nós queremos nos quer a nós, e nem sempre nós estamos disponíveis quando o mesmo dá sinais claros de avanço para o nosso lado.

Isso pode gerar conflitos, bem explicados por uma brilhante nota da Real Academia Sueca de Ciências - a qual eu desconhecia - numa análise à teoria de Smith: (...) o mercado, sob condições ideais, garante uma alocação eficiente de recursos escassos. Mas, na prática, as condições normalmente não são ideais. Por exemplo, a competição não é completamente livre, os consumidores não são perfeitamente informados e a produção e o consumo desejáveis privadamente podem gerar custos e benefícios sociais.

É ou não é verdade? Quantas vezes nos sentimentos prejudicas por uma injusta concorrência com mini-saias e silicones exagerados, que desviam a atenção do gajo para esse exemplar fútil e grotescamente mamalhudo? Quantas vezes sentimos que não estamos a ter acesso a toda a informação? Quando o gajo parece perfeito de mais e há ali qualquer coisa que nos deixa a pulga atrás da orelha, pois é muito improvável tamanha perfeição? E quanto à produção e ao consumo desejáveis privadamente, tanto que haveria a dizer!! O adultério que provocam, as traições e, inevitavelmente, os custos sociais... Roupas que voam pela janela, um nunca mais de dirijas a palavra gritado da janela a plenos pulmões, a casa de campo para ti, o Range Rover para mim, enfim, uma engorda da qual os advogados tiram partido, e muito.

É o caos, é o vê-se-te-havias, é o cada-qual-aos-seus. E depois, claro, são recessões emocionais, são quebras no mercado, é a inflação.

Impressionante o quanto a economia pode ser precisa quando decalcada sobre as relações humanas. Raios, nunca devia ter ido para Relações Internacionais, e sim para Economia. Um dia ainda chegava a Nobel.

9 comentários:

s. disse...

o adam smith era pateta. mas é curioso essas adaptações que explicam certos fenómenos tão bem. uma vez também arranjei um modelo sobre fios de cobre que explica um processo na área de marketing.

Jaime disse...

Hilariante, este texto! :-)

Depois do Nobel da Literatura, ainda chegarás ao Nobel da Economia, isso é evidente.

"Exemplar fútil e grotescamente mamalhudo" é de uma precisão científica notável, para além de literariamente riquíssimo. Não tenho dúvidas de que a Real Academia Sueca teria imenso gosto em te acolher no seu seio (passe a expressão...).

H4rdDrunk3r disse...

Jaime, quanto à Real Academia Sueca, duvido que me acolhessem, posto que não tenho silicone...

Enfim, vou-me dedicar às letras, pode ser que alguém "me pegue"

BJ*

Anónimo Juvenal disse...

...Brilhante!...=) *

Porcos no Espaço disse...

Isto dava pano para mangas. O que dizer da cotação em bolsa e do drama da especulação?

Mr.T disse...

Lindo. Primeira vez que vejo Adam Smith e mamas numa frase. Muito bom!

Relações internacionais? Nice.

Tens algum mail que possa contactar? Sei que fizeste ou querias fazer voluntariado pelo que vi nos princípios do teu blog e gostava de poder sacar alguma info porque estou completamente à nora. Se não te importares, claro, contacta-me para tiago.ambi@gmail.com . Obrigado

Menphis disse...

Fabuloso, hilariante e, provavelmente, terás muita razão no que dizes :)

Anónimo disse...

Demais..esta miúda ta mm la..adoro ler os teus textos..se um dia editares livros serei consumidora assídua:p Nobel da Literatura...Nobel da Economia....penso k´o mais importante tu já demonstras ser....Nobel das Relações Humanas e da Maturidade Pós inúmeras Experiências de Vida...beijinhos


kátia Fonseca (Djumbahhh)

lampâda mervelha disse...

Um relacinamento deveria ter uma cláusula que permitisse a dedução do dispêndio de tempo e energias quando os mesmos, apenas e somente, se apresentam autênticos flops.

A cartelização sentimental por norma até me incomoda um pouco, deixando-me sem grande espaço de manobra. Ora bem, para um fulano (sim, porque o mercado obriga-me a rotular-me de qualquer maneira, mesmo que seja assim; fulano) que não queira hipotecar o seu coração, torna-se pouco convidativo e persuasivo para grandes voos.

Posto isto, talvez abra um cantinho de mim em modo de manifestação gourmet. Tudo aparentemente aprumadinho e biológico. Engano-me.... engano-me tão bem.... e já nem sei o que disse ao certo ou se faz algum sentido.

Importa?

:)